O lançamento de Michael, cinebiografia que retrata a trajetória de Michael Jackson, reacendeu um debate que começa a ganhar espaço também no mercado de seguros: como proteger legados digitais bilionários em uma era marcada por inteligência artificial, clonagem de voz, hologramas e uso comercial da imagem de artistas após a morte? O tema levanta questões sobre propriedade intelectual, sucessão patrimonial e os riscos envolvendo ativos digitais que continuam gerando receitas décadas após o falecimento de seus proprietários.
Para Aluizio Barbosa Jr., professor da Escola de Negócios e Seguros (ENS), o tema já começa a chamar a atenção do mercado de seguros, embora ainda existam poucos produtos específicos voltados para esse tipo de proteção.
“Hoje, no exterior, temos experiências mais avançadas em relação a seguros de propriedade intelectual. No Brasil, existem alguns produtos securitários que podem ser utilizados para isso, como o seguro de Responsabilidade Civil Profissional, para proteção contra eventuais ações por quebra de direitos autorais e plágio involuntário, além do seguro cibernético, que protege o patrimônio digital contra invasões de canais monetizados e a perda de receita decorrente desses eventos”, explica.
A popularização de ferramentas de inteligência artificial capazes de reproduzir vozes, rostos e comportamentos de pessoas reais têm ampliado os desafios para artistas, herdeiros e gestores de espólios. Casos de deepfakes e uso não autorizado de imagem passaram a representar não apenas riscos reputacionais, mas também impactos financeiros relevantes.
Segundo o especialista, o mercado de seguros ainda precisa avançar na criação de soluções mais aderentes a essa nova realidade. “Precisamos evoluir na customização de produtos focados na proteção da imagem e da propriedade intelectual, criando mecanismos que auxiliem no custeio das despesas necessárias para adoção das medidas legais cabíveis contra eventuais violações desses direitos”, afirma.
Na avaliação de Aluizio Barbosa Jr., o legado digital dos artistas tende a se tornar um novo nicho de atuação para seguradoras e corretores. “Especialmente diante do avanço da inteligência artificial, onde já é realidade a realização de campanhas publicitárias e obras cinematográficas utilizando artistas já falecidos. O mercado de seguros certamente pode contribuir para a proteção desses ativos”, destaca.
Além da proteção securitária, a gestão desses patrimônios exige planejamento jurídico e sucessório. Para o professor da ENS, a organização em vida é fundamental para evitar disputas futuras e garantir a continuidade da exploração econômica desses ativos.
“É preciso estruturar previamente toda a dinâmica sucessória, criando mecanismos jurídicos robustos para gerir esses ativos e negociar sua comercialização. Quando isso é feito ainda em vida, reduz-se significativamente o risco de conflitos que possam comprometer a continuidade do legado”, ressalta.
Nesse contexto, ele aponta que diversas modalidades de seguros podem ser utilizadas para apoiar a governança desses patrimônios, incluindo seguro de vida em benefício de holdings patrimoniais, seguro D&O para executivos responsáveis pela gestão desses ativos e seguro cibernético para proteção dos canais digitais.
Com ativos digitais movimentando milhões de dólares e a inteligência artificial ampliando as possibilidades de exploração comercial da imagem de artistas, o setor de seguros passa a observar um mercado que, até poucos anos atrás, sequer existia. Hoje, proteger o legado digital pode ser tão importante quanto proteger o patrimônio físico deixado por grandes celebridades.
Fonte: CQCS








