A estreia de “A Odisseia”, novo filme dirigido por Christopher Nolan, acontece hoje (16) e promete movimentar as bilheterias e atrair a atenção de milhões de espectadores ao redor do mundo. Além da expectativa em torno da adaptação da obra clássica de Homero, a produção também chama a atenção pela grandiosidade da operação. Com orçamento estimado em cerca de US$ 250 milhões, filmagens realizadas em seis países e o uso de locações reais, o longa reúne uma série de desafios que vão muito além das câmeras.
Por trás de uma superprodução desse porte existe uma estrutura complexa de gestão de riscos. Antes mesmo do início das gravações, produtores precisam mapear possíveis ameaças que podem comprometer o cronograma, elevar os custos ou até impedir a conclusão do projeto. É nesse cenário que o mercado de seguros assume um papel estratégico.
Segundo Gustavo Bentes, presidente do Sincor-MG, nenhuma produção dessa magnitude é financiada sem uma estrutura robusta de proteção. “Nenhuma seguradora ou banco libera o financiamento de um filme de US$ 250 milhões sem que uma ampla rede de apólices esteja cobrindo os principais riscos da operação. O seguro deixa de ser apenas uma exigência contratual e passa a ser um dos pilares da viabilidade financeira do projeto”, afirma.
Uma produção internacional envolve o deslocamento de centenas de profissionais, transporte de equipamentos de alto valor, construção de cenários, gravações em ambientes naturais e a participação de um elenco estrelado. Cada um desses elementos representa um risco que pode gerar prejuízos milionários caso ocorra um acidente, uma interrupção inesperada ou um evento climático extremo.
A opção de Christopher Nolan por gravar em locações reais, característica marcante de seus filmes, amplia ainda mais essa necessidade de planejamento. Diferentemente de produções concentradas em estúdios, as filmagens em ambientes externos estão sujeitas a mudanças climáticas, restrições locais, problemas logísticos, acidentes e atrasos provocados por fatores fora do controle da equipe.
Para reduzir esses riscos, grandes estúdios recorrem a diferentes modalidades de seguro. Entre elas estão as apólices que cobrem danos a equipamentos, responsabilidade civil, acidentes envolvendo integrantes da produção, transporte internacional de materiais, além do seguro de erros e omissões (E&O), que protege o estúdio de processos relacionados a direitos autorais, plágio ou uso indevido de propriedade intelectual.
Outro ponto fundamental é a proteção do elenco. Em produções que envolvem atores de grande projeção, um acidente, uma doença ou qualquer impedimento que afaste um dos protagonistas das gravações pode provocar atrasos significativos e elevar os custos do projeto em milhões de dólares.
“Uma das coberturas mais importantes é o seguro de elenco. Se um ator principal ou até mesmo o diretor precisar interromper as filmagens por algumas semanas, a apólice cobre os custos extras para manter equipes, equipamentos e toda a estrutura da produção em funcionamento até a retomada das gravações”, explica Gustavo Bentes.
Além da transferência financeira dos riscos, a prevenção também faz parte do processo. Antes mesmo do início das filmagens, especialistas analisam o roteiro, as locações e as condições operacionais para identificar vulnerabilidades e exigir planos de contingência.
“Em projetos desse porte, a gestão de riscos começa antes das câmeras rodarem. Locais com condições climáticas instáveis ou desafios logísticos exigem planos alternativos para evitar paralisações. Em uma produção milionária, cada minuto parado representa perdas significativas”, destaca.
A dimensão da operação também faz crescer a importância da gestão de riscos ao longo de todas as etapas da produção. O acompanhamento constante das condições de trabalho, da logística e da segurança das equipes se torna tão relevante quanto o planejamento artístico do filme.
Embora pouco percebido pelo público, o mercado segurador faz parte da engrenagem que permite a realização de grandes produções cinematográficas. Sem mecanismos capazes de mitigar riscos e reduzir perdas financeiras, projetos de centenas de milhões de dólares estariam muito mais expostos a imprevistos que poderiam comprometer sua conclusão.
Para Gustavo Bentes, as práticas adotadas por Hollywood também servem de referência para outros setores da economia. “O modelo americano mostra que grandes projetos precisam considerar desde o início cenários alternativos e estratégias de continuidade. Essa cultura vem avançando no Brasil, especialmente com o crescimento das produções audiovisuais, dos grandes festivais e da preocupação cada vez maior com eventos climáticos extremos.”
A chegada de “A Odisseia” aos cinemas reforça que, por trás de cada grande blockbuster, existe um trabalho igualmente grandioso de prevenção, gestão de riscos e proteção patrimonial. Em um setor no qual um único dia de paralisação pode representar prejuízos milionários, o seguro deixa de ser apenas uma formalidade contratual para se tornar um componente essencial para que produções dessa dimensão consigam chegar às telas.
Fonte: CQCS








