Pernas, ‘bumbum’ e casamento: os seguros mais inusitados do mercado

Quanto maior a chance de um problema ocorrer — e quanto maior o prejuízo potencial — mais cara tende a ser a apólice

Quando se fala em seguros inusitados, alguns casos famosos logo vêm à mente. Ao longo dos anos, celebridades recorreram a apólices milionárias para proteger partes específicas do corpo. A cantora Jennifer Lopez teria assegurado o próprio bumbum por US$ 27 milhões estimados à época, enquanto o jogador Cristiano Ronaldo assegurou suas pernas por um valor de 103 milhões de euros. Já Mariah Carey adquiriu uma apólice de US$ 35 milhões para proteger sua voz.

Embora esses exemplos chamem atenção pelo valor e pela excentricidade, o mercado de seguros oferece uma variedade de proteções pouco conhecidas que vão muito além das celebridades. Hoje, já existem apólices para produções cinematográficas, realities shows, casamentos, riscos cibernéticos e até eventos climáticos extremos.

O seguro que protege empresas contra hackers

Com o aumento dos ataques digitais, outro segmento que vem ganhando espaço é o de riscos cibernéticos, voltado principalmente para pequenas e médias empresas.

“O seguro cobre situações como roubo e vazamento de dados, invasão de sistemas, perda de arquivos e exposição negativa da marca”, explica Saint’Clair Lima, diretor de produtos da Bradesco Seguros.

Dependendo da cobertura contratada, a proteção pode incluir custos de recuperação de sistemas, suporte jurídico, comunicação de crises e até indenizações relacionadas à exposição de informações de clientes.

Quando o clima vira risco financeiro

As enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 ajudaram a colocar os riscos climáticos no centro das discussões sobre proteção patrimonial. Hoje, seguradoras oferecem coberturas específicas para fenômenos naturais como vendavais, granizo, alagamentos, inundações, quedas de raios, desmoronamentos e incêndios.

Segundo Lima, essas proteções já fazem parte de grande parte dos seguros patrimoniais oferecidos no mercado. A tendência é de crescimento da procura por esse tipo de cobertura à medida que eventos extremos se tornam mais frequentes e mais caros para famílias e empresas.

O seguro que evita prejuízos milionários em filmes e séries

Pouca gente sabe, mas grandes produções audiovisuais costumam contratar seguros específicos para garantir que as filmagens não sejam interrompidas por imprevistos. Essas apólices cobrem danos a equipamentos, cenários, veículos utilizados em cena, perda de material gravado e responsabilidade civil por danos a terceiros.

Mas a cobertura mais curiosa costuma ser a chamada “Não Comparecimento”. Segundo Mauricio Masferrer, diretor executivo de Negócios Corporativos da Allianz Seguros e Managing Director da Allianz Commercial Brasil, a proteção cobre situações em que atores ou profissionais essenciais ficam impossibilitados de trabalhar.

“Ela abrange o adiamento, a interrupção ou o abandono das filmagens em situações em que uma pessoa designada na apólice seja impossibilitada de desempenhar suas funções em razão de morte, lesão corporal, enfermidade ou sequestro”, afirma.

Em grandes produções, um único dia de paralisação pode gerar prejuízos de centenas de milhares de reais. Por isso, o seguro também pode cobrir custos relacionados à remarcação de locações, contratação de dublês e reorganização do cronograma.

As seguradoras analisam fatores como orçamento da produção, quantidade de episódios, cronograma de gravações e existência de cenas de maior risco, como perseguições, explosões ou sequências de ação.

Embora o tipo de seguro seja o mesmo para produções de diferentes portes, as coberturas e limites variam conforme as características do projeto. “Um documentário que não conta com a participação de atores não dependerá de cobertura para o ‘Não Comparecimento’ do elenco, por exemplo”, diz o especialista da Allianz,

Em produções menores, quanto menos equipamentos estiverem envolvidos no processo, menor será a necessidade de cobertura para essa finalidade.

Já em grandes produções, ganham relevância coberturas voltadas à indisponibilidade de elenco e fatores como gastos para a contratação de dublês, efeitos especiais e efeitos especiais práticos de maquiagem, além da reprogramação de diária e de sets de filmagens que já estavam preparados para receber essas pessoas.

Reality show também faz seguro

A lógica aplicada ao cinema também se estende aos realities shows. Produções desse tipo dependem de uma combinação complexa de equipamentos, tecnologia, apresentadores e participantes. Qualquer interrupção inesperada pode gerar prejuízos significativos.

“Situações como o afastamento do apresentador do reality por questões de saúde ou a quebra de um equipamento são mitigadas pelo seguro, garantindo maior previsibilidade e suporte para decisões rápidas”, explica Masferrer.

A avaliação do risco varia de acordo com o formato do programa. Competições simples apresentam uma exposição diferente daquela observada em realities de resistência, aventura ou sobrevivência.

Casamentos também podem ser segurados

Outra modalidade pouco conhecida é o seguro para eventos, que inclui casamentos. Nesse caso, a cobertura normalmente é contratada pelas empresas responsáveis pela organização do evento e protege contra danos materiais ou corporais causados a terceiros.

Também estão incluídos incidentes relacionados ao fornecimento de alimentos e bebidas. Além dos casamentos, a mesma modalidade pode ser utilizada em aniversários, feiras, congressos, workshops e eventos religiosos.

Como as seguradoras calculam o preço de algo tão diferente?

Apesar de parecerem produtos completamente distintos, a lógica da precificação é semelhante em todos os casos. As seguradoras analisam dois fatores principais: a probabilidade de ocorrência de um sinistro e o tamanho potencial do prejuízo caso ele aconteça.

“No caso dos riscos climáticos, são analisados aspectos como localização geográfica, histórico climático da região e valor do bem segurado”, afirma Lima.

No audiovisual, entram na conta elementos como orçamento da produção, cronograma, complexidade das filmagens e presença de cenas de maior risco.

“Para avaliar o risco e, consequentemente, o prêmio do seguro, entram na análise o valor da produção e sua estrutura, se é longa, série, documentário ou captação de imagens”, explica Mauricio Masferrer, da Allianz Seguros.

No caso de séries, também contam o número de episódios e a periodicidade de entrega. “Em séries, também é levado em conta quantos episódios serão gravados e a periodicidade em que serão disponibilizados”, afirma.

O cronograma de filmagens é outro fator relevante: quanto mais apertado, maior o risco e o custo potencial de atrasos, já que fica mais difícil remanejar as datas de filmagem.

Masferrer acrescenta ainda que cenas de risco também entram na conta, como dublês, perseguições e explosões. “Também observamos se há cenas com dublês, lutas, perseguições de automóvel ou uso de explosivos”.

Em outras palavras, quanto maior a chance de um problema ocorrer — e quanto maior o prejuízo potencial — mais cara tende a ser a apólice.

Segundo o executivo da Allianz, o mercado brasileiro já está preparado para esse tipo de cobertura, inclusive com apoio de resseguro em produções maiores. “No Brasil, há um mercado estruturado para esse tipo de seguro”, completa.

Fonte: Exame