Países como Estados Unidos e Espanha tratam o seguro rural como política estratégica de Estado, integrada ao ecossistema de crédito e planejamento do produtor
Eventos climáticos extremos, como granizo e vendavais, têm se tornado cada vez mais frequentes em regiões do Paraná, São Paulo e Minas Gerais, expondo de forma recorrente a vulnerabilidade da produção agropecuária brasileira. Em poucos dias, lavouras são destruídas, propriedades sofrem perdas relevantes e produtores veem parte significativa de sua renda ameaçada.
Episódios como esses não são exceção: são evidências de uma nova realidade climática que exige respostas estruturadas, previsíveis e permanentes.
Nesse contexto, oferecer seguros rurais aderentes às especificidades regionais e garantir amplo acesso a esses produtos deixa de ser uma agenda setorial e passa a integrar uma estratégia nacional de mitigação de riscos.
Responsável por cerca de um quarto do Produto Interno Bruto brasileiro, o agronegócio é pilar da segurança alimentar, da geração de empregos e do equilíbrio da balança comercial. Proteger a produção e a renda do produtor, portanto, é proteger a própria economia brasileira.
Os números recentes do mercado reforçam essa relevância. De janeiro a outubro de 2025, de acordo com a Confederação Nacional das Seguradoras, o seguro rural arrecadou R$ 11,1 bilhões, queda de 9% em relação ao mesmo período anterior, e pagou R$ 3,6 bilhões em indenizações, recuo de 4%.
Para efeito de comparação, no mesmo intervalo de 2022, a arrecadação foi de cerca de R$ 12 bilhões, crescimento de 41%, enquanto as indenizações somaram aproximadamente R$ 10 bilhões, alta de 88%. A série histórica evidencia como a combinação entre eventos climáticos severos e descontinuidades na política pública impacta diretamente o nível de proteção no campo.
O Brasil construiu, ao longo da última década, uma base técnica e institucional robusta para o seguro rural, com destaque para os seguros de produção agrícolas, florestais e pecuários operados no âmbito do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR).
No seu momento de maior alcance, em 2021, o programa viabilizou a proteção de quase 14 milhões de hectares, majoritariamente de pequenos e médios produtores os mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos , ampliando a cobertura, atraindo seguradoras e resseguradoras e difundindo a cultura de gestão de riscos no campo.
Esse avanço, contudo, não foi interrompido por falhas do modelo ou por limitações técnicas do mercado segurador, mas pela falta de consistência e previsibilidade da política pública voltada à agricultura mais vulnerável. A perda de estabilidade orçamentária, aliada a contingenciamentos e bloqueios recorrentes, fragiliza justamente as ferramentas mais eficientes de proteção.
Paradoxalmente, torna-se mais fácil recorrer à securitização de dívidas, prorrogações emergenciais e ao consumo direto de recursos do Tesouro Nacional do que planejar e executar, de forma contínua, uma política estruturada de mitigação de riscos.
A comparação com outros instrumentos públicos de proteção rural reforça a importância do PSR. Enquanto o seguro rural mobiliza capital privado, compartilha riscos e reduz a exposição direta do Tesouro Nacional, mecanismos baseados em indenizações diretas concentram o risco no orçamento público.
Os dados mostram que o custo médio por hectare segurado via PSR é substancialmente inferior ao de modelos como o PROAGRO e os programas de renegociação de dívidas, que não operam com compartilhamento de riscos, evidenciando maior eficiência econômica e fiscal.
Experiências internacionais indicam o caminho. Países como Estados Unidos e Espanha tratam o seguro rural como política estratégica de Estado, integrada ao ecossistema de crédito e planejamento do produtor. O resultado é maior resiliência do setor, previsibilidade para o produtor rural e menor impacto fiscal em cenários de crise.
O Brasil precisa avançar nessa direção, avaliando modelos internacionais, mas construindo soluções compatíveis com a sua realidade produtiva e climática. Fortalecer o seguro rural como política de Estado significa garantir estabilidade ao produtor, reequilibrar os instrumentos públicos de proteção e criar condições para ampliar, de forma sustentável, a cobertura no campo.
Diante de eventos extremos cada vez mais recorrentes, não se trata apenas de reagir às perdas, mas de antecipar riscos, proteger a renda do produtor e preservar a capacidade produtiva do país. Trata-se de uma agenda convergente com o desenvolvimento econômico, a segurança alimentar e a responsabilidade fiscal valores essenciais para o Brasil que se projeta para 2026 e além.
Fonte: Globo Rural Online








