Quando o arroz fica mais caro e a conta de luz aumenta, o brasileiro sente no dia a dia que a crise climática deixou de ser um problema distante. O calor vira inflação, a chuva causa prejuízos, e os efeitos das mudanças no clima passam a pesar no orçam
Moradores entregam doações aos vizinhos em meio à enchente no Jardim Pantanal, em 2025 Imagem: Herculano Barreto Filho/UOL Quando o arroz fica mais caro e a conta de luz aumenta, o brasileiro sente no dia a dia que a crise climática deixou de ser um problema distante. O calor vira inflação, a chuva causa prejuízos, e os efeitos das mudanças no clima passam a pesar no orçamento das famílias.
Segundo Maria Bernadete Sarmiento Gutierrez, técnica de planejamento e pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), o Brasil perde cerca de 1,3% do PIB por ano por causa de eventos climáticos extremos. No cenário global, os prejuízos causados pelas mudanças climáticas já são seis vezes maiores do que o custo para cumprir as metas do Acordo de Paris.
Um levantamento da CNM (Confederação Nacional dos Municípios), divulgado em 2025, mostra que, entre 2013 e 2024, os municípios brasileiros acumularam mais de R$ 732 bilhões em perdas econômicas devido a desastres naturais ligados ao clima. Nesse período, mais de 6 milhões de pessoas precisaram deixar suas casas por causa de enchentes, secas e outras ocorrências extremas.
Para Élcio Batista, coordenador do Programa Cidade +2°C, do Centro de Estudos das Cidades do Insper, a crise climática afeta a economia de várias formas. “Todos os setores produtivos são vulneráveis aos eventos climáticos extremos, cada um à sua maneira”, afirma.
A seguir, veja os setores mais impactados pela crise climática – e como isso chega ao bolso do consumidor.
Vista aérea de lavoura de arroz alagada pelas chuvas em Eldorado do Sul (RS) em 2024 Imagem: Arquivo pessoal/Marildo Mulinari AgropecuáriaA agropecuária é um dos primeiros setores a sentir os efeitos do clima extremo. Períodos longos de secas e ondas de calor reduzem a produção no campo. Essa queda chega rapidamente aos supermercados, com alimentos mais caros e pressão adicional sobre a inflação.
Inflação é o aumento contínuo dos preços, que diminui o poder de compra da população. Em outras palavras, os salários crescem lentamente, enquanto os preços sobem mais rápido.
De acordo com Jorge Meza, representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) no Brasil, estudos da Associação Caatinga indicam que o aumento das temperaturas pode elevar os preços dos alimentos entre 0,92% e 3,23% ao ano até 2035.
O motivo é simples: secas e enchentes reduzem a produtividade, enquanto eventos extremos, como incêndios e tempestades, destroem lavouras de alimentos básicos, como milho, arroz e feijão. Além disso, o clima desregulado favorece pragas e doenças, aumentando ainda mais os custos da produção.
Dados da CNA (Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária) mostram que, entre 2020 e 2023, a produção de café foi fortemente afetada pela falta de chuvas, associada ao fenômeno La Niña, além de episódios de geadas. Em Minas Gerais, a produtividade caiu de 35 para 23 sacas por hectare entre 2021 e 2022.
O La Niña é um fenômeno climático caracterizado pelo resfriamento anormal das águas do Oceano Pacífico. Ele provoca chuvas intensas no Norte e Nordeste do Brasil e períodos de seca no Sul.
Ainda segundo a CNA, também houve quebra de safra de grãos no Sul do país. Entre 2020 e 2023, a produtividade ficou 11% abaixo da média histórica na soja, 14% no milho e 3% no feijão.
Os prejuízos não se limitam às lavouras. A pecuária também é afetada. Com o calor excessivo, os animais se alimentam menos, ganham menos peso, produzem menos leite e ficam mais suscetíveis a parasitas. “Em alguns casos, o estresse térmico pode reduzir em até 20% a produção de vacas de alta lactação”, afirma Bruno Lucchi, diretor técnico da CNA.
EnergiaOutro setor fortemente impactado pela crise climática é o de energia elétrica. Isso ocorre porque mais de 60% da matriz elétrica brasileira é hidrelétrica, ou seja, depende do volume de chuvas.
Quando a seca se prolonga, os reservatórios ficam baixos exatamente no momento em que o calor aumenta o consumo de energia, principalmente com ventiladores e ar-condicionado. Com menos água disponível, o país precisa acionar termelétricas, que são mais caras e poluentes.
Esse desequilíbrio aparece rapidamente na conta de luz, com tarifas mais altas para os consumidores.
Além da geração, a distribuição de energia também sofre. Tempestades, ventos fortes e queda de árvores danificam redes elétricas e provocam interrupções no fornecimento.
Um exemplo ocorreu em 2025, na Grande São Paulo. A passagem de um ciclone extratropical deixou mais de 2,2 milhões de imóveis sem energia elétrica e causou um prejuízo estimado em R$ 1,54 bilhão em faturamento, segundo a FecomercioSP.
“A crise climática afeta tanto a oferta quanto a demanda de energia elétrica. Pelo lado da demanda, há um aumento no consumo para refrigeração, principalmente em regiões quentes. Pelo lado da oferta, o aumento da temperatura pode levar a uma diminuição na eficiência da geração, principalmente em usinas termelétricas e solares fotovoltaicas”, lembra Maria Bernadete Sarmiento Gutierrez, técnica de planejamento e pesquisa do Ipea.
SegurosO aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos tem colocado o setor de seguros em alerta. Inundações, enxurradas, vendavais, granizo e tornados se tornaram mais comuns e mais caros.
Esse cenário tem levado as seguradoras a revisar contratos, limites de indenização, franquias e critérios de cobertura.
“As evidências de que o Brasil não está mais fora do mapa de desastres naturais têm fortalecido empresas em aperfeiçoar práticas de identificação, avaliação, precificação e gestão de riscos climáticosl”, destaca Claudia Prates, diretora de Sustentabilidade da CNseg (Confederação Nacional das Seguradoras).
Também cresce a exigência de medidas de prevenção por parte dos segurados, como melhorias em drenagem, manutenção de telhados e planos de continuidade de negócios.
“Esses ajustes decorrem do aumento global da frequência e da severidade dos eventos climáticos, que elevou o custo da proteção de resseguro em todo o mundo. Como consequência, o custo para as seguradoras protegerem suas próprias carteiras também aumentou – um fenômeno internacional, e não restrito ao Brasil”, diz Ney Ferraz Dias, presidente da FenSeg (Federação Nacional de Seguros Gerais).
Um exemplo recente ocorreu em 2024, durante as enchentes no Rio Grande do Sul. Um estudo do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), em parceria com a CEPAL e o Banco Mundial, estimou R$ 88,9 bilhões em perdas econômicas associadas ao desastre.
“Ao ofertar proteção, o setor de seguros assegura a resiliência financeira da sociedade, evitando que perdas decorrentes de eventos adversos se transformem em crises econômicas prolongadas”, defendeu Claudia Prates, diretora de Sustentabilidade da CNseg.
Apesar disso, um dos principais desafios do setor no Brasil ainda é a baixa contratação de seguros. Pesquisa divulgada durante a COP30 mostrou que cerca de 91% das perdas econômicas causadas por eventos climáticos extremos no país não estavam cobertas por seguros.
Para Jaques Paes, professor do MBA em ESG e Sustentabilidade da FGV (Faculdade Getúlio Vargas), a falta de adaptação, gestão de risco e políticas de resiliência tende a tornar o custo da crise climática cada vez maior. “Ao longo do tempo, esse processo pressiona a produtividade e o crescimento potencial, resultando em uma economia estruturalmente mais cara de operar e mais volátil”, explica.
Fonte: BOL – Notícias








