Transição verde avança, mas ritmo ainda é decisivo, aponta estudo da Allianz

Green Transition Tracker 2025 avalia 69 países e mostra que metade das economias analisadas segue em trajetória compatível com as metas climáticas; Brasil ocupa a 26ª posição no ranking global de progresso

Dez anos após a assinatura do Acordo de Paris, a transição verde global chega a um momento decisivo, mas ainda distante de um cenário irreversível. Essa é a principal conclusão do relatório “Uma década após Paris: progresso, paralisia e a corrida para o net zero”, divulgado pela Allianz Research com base nos resultados do Green Transition Tracker 2025.

O estudo avalia 69 países a partir de cinco indicadores: intensidade de carbono, intensidade energética, emissões per capita territoriais e baseadas no consumo, além da participação de energia de baixo carbono na matriz elétrica. A metodologia combina desempenho atual e velocidade da transição, permitindo uma análise comparativa entre países e regiões.

Os resultados indicam que 15 países já percorreram pelo menos um terço do caminho necessário para alcançar emissões líquidas zero até 2050, alinhados à meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C. Outros 20 países ainda podem atingir esse objetivo de forma realista, desde que mantenham o ritmo atual de descarbonização.

A análise por pares revela padrões globais conhecidos. Países de baixa renda, como o Sri Lanka, se destacam pelas baixas emissões per capita, enquanto economias europeias, como a Suécia, apresentam bom desempenho graças a esforços contínuos de descarbonização. Em contrapartida, economias exportadoras de petróleo aparecem nas últimas posições do ranking. Chamam atenção também os dois maiores emissores do mundo: China e Estados Unidos ocupam, respectivamente, as posições 57ª e 58ª, evidenciando o tamanho do desafio que ainda enfrentam.

Já as pontuações de progresso, que medem a distância até a meta de emissões líquidas zero em 2050, trazem um cenário mais encorajador. Luxemburgo e Suíça lideram o grupo de países no caminho correto, impulsionados por elevados níveis de eficiência energética e por matrizes elétricas com mais de 90% de eletricidade de baixo carbono. Outros 20 países já avançaram ao menos 20% do percurso necessário, mantendo-se em uma rota considerada viável para cumprir a meta climática. Em sentido oposto, Estados Unidos e China avançaram apenas marginalmente desde 2015, apesar de responderem por cerca de 40% das emissões globais.

Patrick Hoffmann, economista de ESG na Allianz Research afirma que o desafio climático ainda tem subidas íngremes pela frente, “mas já fizemos progressos significativos e não devemos desistir no meio do caminho”, afirma Patrick Hoffmann.

“Aproximadamente metade dos países avaliados ainda está no caminho de contribuir para limitar o aquecimento global a 2°C. Isso não significa que a missão esteja cumprida, mas sim que não estamos condenados. Esses exemplos devem servir de motivação para os retardatários, incluindo China e Estados Unidos.”, explica. 

Brasil avança na transição, mas enfrenta entraves ambientais

O Brasil ocupa a 26ª posição no ranking global de progresso e a 5ª colocação entre seus pares. O país já percorreu 25,2% do caminho rumo ao net zero em 2050, mantendo-se dentro do alcance da meta de 2°C estabelecida pelo Acordo de Paris. Apesar de as emissões totais terem crescido 5,3% na última década, o avanço foi menor do que o crescimento do PIB, que superou 12% no mesmo período, indicando um desacoplamento parcial entre crescimento econômico e emissões.

 

Esse resultado foi impulsionado principalmente pela expansão da energia de baixo carbono. A participação de eletricidade limpa na matriz brasileira aumentou de 77% para 91% nos últimos dez anos, reduzindo a intensidade de carbono da economia em 6,4% e diminuindo a participação do país nas emissões globais de CO₂, que passou de 2,55% para 2,44%.

O principal desafio permanece no uso da terra. O desmatamento agrícola e os incêndios induzidos pelo clima elevaram as emissões relacionadas ao setor em 39%, anulando parte dos avanços obtidos na área energética. Caso consiga conter o desmatamento e explorar o potencial de sequestro de carbono de suas florestas, o Brasil poderá alcançar a meta de redução de emissões entre 59% e 67% até 2035. O estudo pode ser acessado aqui.

“O Brasil está provando que uma economia emergente pode avançar de forma concreta na transição energética, com a rápida expansão da energia limpa se destacando como uma história de sucesso”, avalia Katharina Utermöhl, líder de Pesquisa Temática e de Políticas da Allianz Research. 

“O teste decisivo agora vai além do setor energético: proteger os vastos sumidouros naturais de carbono do país. Se o Brasil conseguir conter o desmatamento e preservar suas florestas, fortalecerá significativamente o seu caminho rumo ao net zero e desempenhará um papel crucial nos esforços globais para limitar o aquecimento.”, afirma. 

Velocidade é o fator decisivo

O relatório conclui que a transição climática global não fracassou, mas depende diretamente da aceleração dos investimentos. “A transição global não é uma questão de possibilidade, mas de velocidade”, ressalta Ludovic Subran, economista-chefe e Chief Investment Officer do Grupo Allianz. “Países que incorporam ambição climática em seus arcabouços econômicos e financeiros estão se posicionando para um crescimento mais forte e resiliente. O desafio à frente é acelerar o investimento onde ele importa mais — energia, infraestrutura e tecnologia — para garantir que a transição permaneça crível e inclusiva.”

As informações são da Allianz Research, com base no Green Transition Tracker 2025.

Fonte: CQCS