Idosos vivem mais. O seguro acompanha essa realidade?

O envelhecimento da população brasileira vem transformando diferentes setores da economia, incluindo o mercado de seguros. Com cerca de 36 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais, segundo o IBGE, e propostas em discussão para proibir a discriminação da pessoa idosa na contratação de seguros, cresce também o debate sobre a necessidade de produtos mais aderentes à nova realidade demográfica.

Para a corretora de seguros e especialista em seguro de vida Simone Magalhães, o desafio vai além de ampliar o acesso desse público aos produtos já existentes.

“O verdadeiro desafio é fazer com que o sistema continue sustentável. O seguro funciona através do mutualismo. Quanto mais envelhecida fica uma carteira, maior tende a ser a frequência e o custo dos sinistros. Por isso, a longevidade do mercado depende também da entrada constante de pessoas mais jovens, que ampliam a base segurada e ajudam a equilibrar o cálculo atuarial.”

Ao mesmo tempo, Simone acredita que o envelhecimento da população impulsionará uma nova geração de produtos voltados às assistências em vida.

“O consumidor está vivendo mais e quer viver melhor. Assistência domiciliar, telemedicina, acompanhamento pós-alta, programas preventivos, apoio ao cuidador e coberturas para doenças graves tendem a ganhar cada vez mais protagonismo. O seguro deixa de ser apenas uma proteção para o momento da morte e passa a acompanhar toda a jornada do envelhecimento do cliente.”

Para a especialista, essa evolução também exige uma mudança na forma como o mercado conversa com esse público.

“Durante muito tempo, o consumidor idoso praticamente só encontrava produtos voltados para cobertura por morte. Hoje vivemos uma realidade diferente. As pessoas permanecem economicamente ativas por mais tempo e buscam autonomia e qualidade de vida. O corretor precisa compreender esse processo e conversar com esse consumidor sem infantilização e sem partir do pressuposto de que ele busca apenas proteção para a morte.”

Segundo Simone, ampliar a informação também é essencial para reduzir o desconhecimento sobre as possibilidades oferecidas pelo seguro.

“Ainda existe um grande desconhecimento sobre as coberturas pagas em vida, as assistências disponíveis e o papel do seguro como ferramenta de planejamento para uma longevidade mais tranquila. Quanto mais o consumidor conhecer essas possibilidades, mais natural será enxergar o seguro como um aliado para viver melhor.”

A longevidade também abre espaço para inovação. Na avaliação da especialista, o mercado precisará desenvolver novos produtos e aperfeiçoar seus modelos atuariais para acompanhar uma população que envelhece.

“Durante muito tempo inovamos pensando em patrimônio. Agora precisaremos inovar pensando em pessoas. Vejo espaço para seguros que integrem proteção financeira, prevenção, monitoramento de saúde, assistência contínua, apoio psicológico, programas de envelhecimento saudável e benefícios voltados ao cuidador familiar.”

Ela ressalta, porém, que a inovação não deve se limitar às coberturas.

“Será necessário aperfeiçoar constantemente os modelos de precificação e gestão de risco para manter pessoas em idades mais avançadas protegidas sem comprometer o equilíbrio técnico das carteiras. A longevidade não representa um problema para o mercado de seguros. Ela representa um convite à evolução.”

Para Simone Magalhães, um dos principais erros ainda cometidos pelo mercado é iniciar a conversa sobre proteção apenas quando o consumidor já alcançou uma idade em que muitas seguradoras impõem restrições para contratação.

“O corretor que se tornará referência para esse público será aquele que não espera o cliente chegar aos 70 ou 80 anos para falar sobre proteção. Ele inicia essa conversa muito antes, quando a pessoa ainda está em idade economicamente ativa e pode construir uma proteção sólida para si e para sua família.”

Na avaliação da especialista, acompanhar a transformação demográfica deixou de ser apenas uma oportunidade comercial e passou a ser uma necessidade para o setor.

“Envelhecer é uma conquista da sociedade. O mercado de seguros precisa acompanhar essa conquista, oferecendo produtos cada vez mais aderentes à nova realidade demográfica. Afinal, proteger pessoas não pode deixar de fazer sentido justamente quando elas mais precisam de segurança e tranquilidade.”

Fonte: CQCS