Taça da Copa do Mundo: como se protege um patrimônio que vale milhões?

A Taça da Copa do Mundo voltou a despertar curiosidade após uma reportagem mostrar que o troféu é produzido em ouro maciço e reúne um valor histórico, cultural e financeiro praticamente incalculável. Mas, além do simbolismo, o objeto levanta uma questão importante para o mercado de seguros: como proteger um patrimônio único, que não pode ser substituído em caso de perda?

Segundo Rafael A. Weber, diretor da Hatteras Wealth & Risk Management, a lógica aplicada nesse tipo de risco é completamente diferente daquela utilizada em seguros tradicionais, como automóvel ou residência. “O seguro de automóvel, de imóvel ou de estoque parte da ideia de reposição: houve o sinistro, compra-se outro. Com a Taça da Copa do Mundo isso não existe. A perda seria definitiva. O seguro deixa de ser reposição e passa a ser uma indenização baseada em um valor previamente acordado, acompanhada de uma estrutura robusta de prevenção de riscos”, explica.

De acordo com o especialista, bens dessa natureza são enquadrados em um nicho específico voltado a metais preciosos, obras de arte e objetos de alto valor, tradicionalmente estruturado no mercado internacional. A Taça da Copa do Mundo, por exemplo, reúne características de obra de arte por ser uma escultura assinada e de ativo composto por ouro maciço.

Nesses casos, a contratação costuma ocorrer na modalidade All Risks (Todos os Riscos). Em vez de listar apenas as situações cobertas, a apólice estabelece as exclusões. Assim, tudo o que não estiver expressamente excluído passa a ser considerado protegido.

Segundo Weber, esse tipo de seguro contempla riscos como roubo, furto, danos acidentais durante o manuseio, incêndio, explosão, eventos da natureza, vandalismo e danos maliciosos.

Há ainda coberturas específicas pouco comuns em seguros tradicionais, como a proteção para desaparecimento inexplicável da peça e a chamada cobertura por depreciação. Nesse caso, mesmo que o objeto seja restaurado, a seguradora pode indenizar a perda de valor causada pelo dano.

“O valor da Taça não está apenas no ouro. Existe um patrimônio histórico e simbólico impossível de substituir. Por isso, a cobertura para perda de valor é uma das mais relevantes nesse tipo de operação”, destaca.

Em contrapartida, normalmente permanecem excluídos riscos como desgaste natural, deterioração decorrente do próprio material, guerra, confisco por autoridade pública, riscos nucleares e atos dolosos praticados por quem deveria proteger o bem.

Outro aspecto que diferencia esse mercado é a forma de definição do valor segurado. Em vez de utilizar uma cotação de mercado após um eventual sinistro, o seguro trabalha com o chamado valor acordado, definido previamente entre segurado e seguradora com base em avaliações técnicas independentes.

Segundo Weber, primeiro é calculado o valor objetivo do patrimônio no caso da Taça, considerando aproximadamente cinco quilos de ouro 18 quilates e sua base de malaquita. Depois, são incorporados fatores históricos, culturais e de raridade. “Como não existe mercado para uma peça única como essa, o valor é estabelecido antes da contratação por meio de laudos técnicos, documentação de procedência, registros fotográficos e relatórios detalhados sobre o estado de conservação da peça”, afirma.

Embora muitas pessoas imaginem que o maior risco esteja durante o armazenamento, a fase mais delicada costuma ser justamente o transporte.

Para isso, são utilizadas apólices conhecidas como “prego a prego” (nail-to-nail), que garantem cobertura contínua desde a retirada do objeto de seu local permanente até o retorno, incluindo embalagem, transporte, exposição e armazenamento temporário.

Segundo Weber, além da cobertura securitária, existem exigências rigorosas relacionadas à operação. “O seguro é apenas a última camada de proteção. Antes dele existe toda uma estrutura de prevenção, com transporte especializado, escolta, controle de acesso, vitrines apropriadas, alarmes, rastreamento e protocolos de segurança. Se essas medidas previstas na apólice não forem cumpridas, a seguradora pode recusar a indenização”, explica.

Como a Taça circula por diferentes países durante eventos promocionais e competições, também é necessário definir limites territoriais da cobertura, regras para exposição pública e integração entre o seguro da peça e o seguro dos locais que a recebem.

Para Weber, em riscos dessa complexidade, o corretor exerce uma função muito mais ampla do que apenas buscar preço. “O corretor atua como o arquiteto do programa de seguros. É ele quem identifica os riscos, coordena a avaliação do patrimônio, negocia as cláusulas da apólice, estrutura a cobertura para transporte e exposição e verifica se todas as exigências de segurança realmente podem ser cumpridas pelo cliente”, afirma.

Segundo o especialista, também cabe ao corretor intermediar a relação entre segurado, seguradoras, resseguradores e equipes responsáveis pela segurança e logística da operação. “No fim, o corretor conecta três universos diferentes: quem enxerga o valor histórico do patrimônio, quem assume o risco financeiro e quem executa toda a operação de proteção. É essa integração que garante que, caso ocorra um sinistro, a apólice funcione exatamente como foi planejada”, conclui.

Fonte: CQCS