Executivos destacam que conectividade, inteligência artificial e autonomia veicular já impactam a segurança, a precificação dos seguros e a regulação do setor
A evolução dos veículos conectados, o avanço da inteligência artificial e a chegada da condução autônoma estiveram no centro do debate do painel “A nova arquitetura da mobilidade: conectividade, dados, cibersegurança e o futuro do veículo inteligente”, apresentado por Eduard Folch, CEO da Allianz Brasil, Daniel Pita, presidente da Allianz Partners, e Igor Calvet, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). O encontro foi realizado nesta quarta-feira (10), durante o ANFAVEA VISIONSONS, em São Paulo, e discutiu os impactos das novas tecnologias sobre a mobilidade, a indústria automotiva e o mercado de seguros.
Seguros já sentem os efeitos da nova mobilidade
Um dos principais pontos foi o impacto das novas tecnologias sobre a gestão de riscos e a precificação dos seguros. Para Eduard Folch, a incorporação de sistemas avançados de assistência à condução representa uma mudança estrutural na segurança viária.
“Já não estamos falando apenas de segurança passiva, mas de uma minimização do risco de forma muito significativa. Em um estudo da Allianz com 6.500 acidentes, identificamos que dois terços dos casos analisados não teriam acontecido se os veículos estivessem equipados com os sistemas atuais de assistência à condução”, afirmou.
Em conversa com o CQCS após o painel, Folch destacou que essa transformação já produz efeitos concretos no mercado de seguros. “Todos aqueles veículos que têm sistemas de segurança, ou ADAS, e sistemas preditivos estão sendo precificados com vantagens. Essas mudanças têm muito a ver com o ambiente legislativo de cada país e a evolução das responsabilidades no seguro está diretamente ligada ao desenvolvimento da legislação em cada mercado.”
O executivo ressaltou ainda que a disponibilidade de dados dos veículos altera a forma como as seguradoras avaliam riscos. “Não faz sentido avaliar da mesma forma um motorista sobre o qual você possui informações detalhadas de telemetria e outro do qual você não possui nenhum dado. A qualidade da informação melhora muito a capacidade de avaliação do risco”, observou.
Daniel Pita, presidente da Allianz Partners, destacou que a inteligência artificial vem mudando o papel da assistência automotiva, que deixa de atuar apenas quando ocorre um problema e passa a antecipar necessidades dos usuários.
“Essa mudança passa por uma aceleração muito grande e muito rápida. Ela deixa de atuar apenas na prevenção e avança para a predição. Hoje, vemos veículos capazes de prever eventos antes mesmo que eles aconteçam, mudando completamente a experiência do consumidor com o veículo”, afirmou. Segundo Pita, a integração entre montadoras, seguradoras e empresas de assistência tem como objetivo tornar a jornada do cliente cada vez mais simples e transparente.
“O tema discutido foi justamente transformar dados em ação. Existe uma integração muito grande entre seguradoras, empresas de assistência e montadoras. O objetivo é eliminar o atrito na jornada para que o cliente tenha uma experiência cada vez mais integrada”, destacou.
Ao CQCS, o executivo reforçou que a inteligência artificial já exerce papel decisivo na assistência automotiva. “Hoje, a IA atua de forma muito mais ativa na predição. Ela consegue avisar o cliente antes mesmo que uma interrupção aconteça, indicando, por exemplo, a necessidade de troca de bateria ou de uma manutenção específica. Isso ajuda na jornada do consumidor e reduz fricções”, afirmou.
A condução autônoma também foi apontada como uma transformação já em curso. Para Folch, o conceito deixou de ser uma projeção futurista e passou a fazer parte da realidade em diversos mercados.
“Estamos falando de algo que já existe. Eu tive a oportunidade de experimentar. Você entra no veículo, não há motorista, e a única pergunta que o sistema faz é se você quer música, ar-condicionado e para onde deseja ir. É uma realidade que está impactando profundamente o futuro da mobilidade”, salientou.
O CEO da Allianz Brasil observou que a chegada desses modelos também muda o método tradicional do seguro. “Atualmente, a lógica é simples: um motorista, um carro e uma responsabilidade. Mas, nesse novo cenário, as responsabilidades passam a envolver o fabricante do veículo, o proprietário e outros agentes. Isso exigirá novas formas de regulação e novos modelos de proteção”, ressaltou.
Infraestrutura e regulação serão decisivas para o avanço tecnológico
Ao abordar o futuro da mobilidade, Igor Calvet, presidente da Anfavea, destacou que a velocidade das transformações tem surpreendido até os especialistas do setor. “Há dez anos, muita coisa era apenas tendência e poderia ou não acontecer. O que ocorreu foi que a velocidade das transformações foi muito maior do que talvez 80% do mercado imaginava. Quando olhamos para o futuro, é por isso que é difícil responder onde estaremos em cinco ou dez anos”, afirmou.
O presidente da Anfavea observou que os veículos estão se tornando plataformas digitais cada vez mais sofisticadas. “Depois de tudo o que ouvimos aqui sobre inteligência artificial é impossível não ficar impressionado. Essa ideia do carro como um computador sobre rodas é cada vez mais real. Durante muito tempo nos acostumamos a enxergar o carro apenas do ponto de vista mecânico, e não eletrônico”, disse.
Calvet também ressaltou que o avanço das novas tecnologias dependerá de investimentos em infraestrutura e de uma agenda regulatória capaz de acompanhar a velocidade das mudanças.
“Para reduzir riscos e trazer mais clareza para a indústria de seguros é fundamental que exista regulação. Mas há um desafio: mesmo quando a regulação é criada, a tecnologia avança tão rapidamente que ela já nasce
Fonte: CQCS








