Carro elétrico em chamas em concessionária acende alerta para o seguro empresarial

O incêndio seguido de explosão de um carro elétrico dentro de uma concessionária em São José dos Campos (SP) trouxe para o radar do mercado de seguros uma discussão que tende a ganhar força nos próximos anos: os seguros empresariais estão acompanhando os novos riscos trazidos pela eletrificação da frota?

Embora a cobertura para incêndio e explosão não apresente diferenças substanciais em relação aos veículos convencionais, especialistas ouvidos pelo CQCS afirmam que o armazenamento, a manutenção e o manuseio de veículos elétricos exigem uma análise de risco cada vez mais criteriosa, cenário que amplia a importância da atuação consultiva dos corretores de seguros.

A ocorrência, registrada na última semana, mobilizou equipes do Corpo de Bombeiros e exigiu o uso de cerca de 15 mil litros de água para o combate às chamas. O caso chamou atenção para as particularidades dos incêndios envolvendo baterias de íon-lítio e para a necessidade de as empresas revisarem suas estratégias de gestão de riscos diante do avanço da mobilidade elétrica.

Do ponto de vista da cobertura securitária, o presidente do Sincor-PE, Carlos Valle, explica que não há diferenças relevantes em relação ao acionamento do seguro quando comparado a ocorrências envolvendo veículos a combustão.

Segundo ele, uma concessionária que possua cobertura básica para incêndio, queda de raio e explosão já conta, em princípio, com proteção para eventos dessa natureza. Valle ressalta que não vê dificuldades para a regulação do sinistro, desde que a empresa tenha contratado as coberturas adequadas.

“Se a revenda tiver o seguro básico para incêndio, queda de raio e explosão, a cobertura tende a amparar uma situação como essa”, observa.

Se a cobertura não muda, o mesmo não pode ser dito da análise de risco.

Com a expansão da frota elétrica, seguradoras vêm sendo desafiadas a aprofundar os critérios de aceitação e precificação dos riscos empresariais. Isso porque os veículos eletrificados possuem características operacionais que exigem cuidados específicos, especialmente em locais que armazenam, comercializam ou realizam manutenção desses automóveis.

Valle compara a situação à diferença entre segurar um galpão que armazena materiais de baixo potencial de combustão e outro destinado a produtos mais inflamáveis. Segundo ele, empresas que trabalham com veículos elétricos precisam seguir rigorosamente as normas relacionadas ao armazenamento, carregamento e reparo desses automóveis.

Na prática, isso significa que a seguradora precisa avaliar cuidadosamente as características do imóvel, os procedimentos adotados pela empresa e as medidas de segurança implementadas antes de aceitar o risco e definir o valor do seguro.

A preocupação também é destacada por Dorival Alves de Sousa. Para ele, os veículos elétricos apresentam particularidades que exigem atenção especial das seguradoras.

Segundo o especialista, os incêndios envolvendo baterias de íon-lítio possuem comportamento distinto dos observados em veículos a combustão. As chamas podem ser mais difíceis de controlar e, mesmo após o combate inicial, existe a possibilidade de reignição devido à energia residual armazenada nas baterias.

“As seguradoras estão cientes de que esses veículos têm um perfil de risco diferente, principalmente em casos de incêndio, que podem demandar técnicas específicas de combate e resfriamento”, destaca.

Além dos desafios operacionais, Dorival observa que os custos de reparação também costumam ser mais elevados, considerando a complexidade dos componentes presentes nos veículos elétricos.

Esse cenário tem levado o mercado segurador a revisar seus modelos de subscrição. Entre os fatores que ganham relevância estão o histórico de incêndios, a tecnologia utilizada nas baterias, as características de cada modelo e a localização geográfica dos riscos segurados.

Segundo ele, as seguradoras vêm adaptando suas práticas de análise e precificação para refletir as particularidades dessa nova realidade, além de investir em treinamento de equipes e na criação de protocolos específicos para o atendimento de sinistros envolvendo veículos eletrificados.

Para os corretores de seguros, o avanço da mobilidade elétrica também representa uma oportunidade de ampliar sua atuação consultiva junto aos clientes empresariais.

Na avaliação de Carlos Valle, o trabalho do corretor não deve se restringir à contratação ou renovação da apólice. O acompanhamento constante das operações dos clientes pode ajudar a identificar mudanças que impactam diretamente a exposição ao risco, como aumento de estoque, expansão das instalações, reformas ou alterações nas atividades desenvolvidas.

“É importante acompanhar o cliente e verificar periodicamente se houve mudanças no risco ou novas necessidades de proteção. Essa proximidade gera valor e fortalece o papel consultivo do corretor”, afirma.

Dorival compartilha da mesma visão e acredita que os profissionais podem se posicionar como referências no tema, orientando empresas sobre riscos específicos dos veículos elétricos, medidas preventivas e coberturas adequadas.

Entre as oportunidades apontadas pelo representante da Fenacor estão a educação dos clientes, a recomendação de coberturas compatíveis com os novos riscos e a conscientização sobre práticas de prevenção que contribuam para reduzir a exposição a perdas.

O episódio registrado em São José dos Campos mostra que a eletrificação da frota traz desafios que vão além da tecnologia. Para concessionárias, oficinas, estacionamentos e demais empresas que trabalham com veículos elétricos, a gestão de riscos passa a exigir atenção redobrada. E, nesse cenário, o corretor de seguros tende a assumir um papel cada vez mais estratégico na proteção patrimonial e na adequação das coberturas às transformações do mercado.

Fonte: CQCS