Seguro residencial virou serviço de chaveiro e encanador: entenda por que 65% dos acionamentos já não são para emergências

Eventos climáticos, home office e serviços 24 horas estão por trás do crescimento de 49% do seguro residencial no Brasil nos últimos quatro anos.

Quase dois terços dos acionamentos do seguro residencial no Brasil hoje não são para incêndios ou roubos — são para imprevistos domésticos como encanamento, chaveiro e danos elétricos. Esse dado da Brasilseg resume uma transformação que ajuda a explicar por que o segmento cresceu 49% em quatro anos e atingiu R$ 1,73 bilhão só no primeiro trimestre de 2026, segundo dados da Susep (Superintendência de Seguros Privados).

Eventos climáticos extremos, consolidação do home office, maior preocupação com proteção patrimonial e busca por serviços cobertos pelos contratos estão impulsionando o mercado de seguro residencial no Brasil nos últimos anos. A alta de 10,5% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior reforça uma tendência consistente: de 2022 a 2025, esse tipo de seguro avançou 49,22%, passando de R$ 4,48 bilhões para R$ 6,66 bilhões em prêmios emitidos. O prêmio é o valor pago pelo cliente à seguradora para manter as suas apólices, o documento que oficializa o contrato de seguro ativo.

Como o home office e os eventos climáticos mudaram o seguro residencial

O aumento de temporais, enchentes, vendavais e danos elétricos tornou os riscos mais visíveis dentro de casa, segundo especialistas. Ao mesmo tempo, a residência passou a ocupar um espaço ainda mais importante na vida das famílias após a pandemia.

“Com a consolidação do home office e dos modelos híbridos de trabalho, muitos brasileiros passaram a ficar mais tempo em casa e, consequentemente, a olhar o imóvel de outra forma, não apenas como um patrimônio, mas também como um espaço de convivência, trabalho e bem-estar, afirma Andrea Nogueira, diretora de seguros massificados da Mapfre.

Segundo ela, o seguro residencial deixou de ser visto apenas como proteção para grandes emergências. “Hoje, ele não é visto apenas como uma despesa eventual, mas como uma solução que combina proteção, conveniência e tranquilidade”, diz.

Dados sobre o crescimento do seguro residencial no país

Prêmios emitidos em 2025 R$ 6,66 bi

Crescimento 2022–2025 +49,2%

Crescimento 1º tri 2026 +10,5%

Prêmios emitidos por ano — mercado de seguro residencial (R$ bilhões)

Prêmios emitidosCrescimento ano a ano

Prêmios emitidos no 1º trimestre — comparativo (R$ bilhões)

1º trimestre2026 (mais recente)

Fonte: Susep (Superintendência de Seguros Privados)

O seguro residencial é obrigatório?

Segundo definição da Susep, o seguro residencial é um contrato que protege a residência, seja uma casa, apartamento de uso regular ou de temporada, e os bens que estão dentro dela contra diversos imprevistos.

Entre as proteções mais comuns estão incêndio, danos elétricos, roubo, furto, alagamento, vendaval, quebra de vidros, desmoronamento e impacto de veículos. Dependendo do plano contratado, também podem existir coberturas para responsabilidade civil familiar, despesas médicas, danos a terceiros e assistência para pets, além de serviços 24 horas.

O seguro pode ser contratado pelo cliente diretamente com empresas especializadas, corretores ou com a intermediação via imobiliárias (a Loft, por exemplo, oferece esta opção intermediada).

O seguro residencial é obrigatório?

Segundo definição da Susep, o seguro residencial é um contrato que protege a residência, seja uma casa, apartamento de uso regular ou de temporada, e os bens que estão dentro dela contra diversos imprevistos.

Entre as proteções mais comuns estão incêndio, danos elétricos, roubo, furto, alagamento, vendaval, quebra de vidros, desmoronamento e impacto de veículos. Dependendo do plano contratado, também podem existir coberturas para responsabilidade civil familiar, despesas médicas, danos a terceiros e assistência para pets, além de serviços 24 horas.

O seguro pode ser contratado pelo cliente diretamente com empresas especializadas, corretores ou com a intermediação via imobiliárias (a Loft, por exemplo, oferece esta opção intermediada).

O que diz a Lei do Inquilinato sobre o seguro residencial

Embora o seguro residencial seja citado na Lei do Inquilinato, ele não é obrigatório por lei. O que a lei do inquilinato estabelece é o seguro contra incêndio, e que essa contratação deve ser paga pelo dono do imóvel, a não ser que isso seja combinado em contrato e o inquilino aceite o seu pagamento.

O seguro residencial é diferente do seguro condomínio. Enquanto o seguro condominial protege a estrutura do prédio e as áreas comuns, o residencial cobre a unidade individual e os bens existentes dentro dela.

Segundo a advogada Anne Caroline Wendler, especialista em direito securitário do escritório Rücker Curi Advocacia e Consultoria Jurídica, apenas o seguro condominial é obrigatório por lei, no caso, a do Condomínio e o Código Civil. “O seguro residencial tem natureza facultativa. Ninguém é obrigado por lei a contratar”, afirma.

Nos imóveis alugados, normalmente o contrato de locação define quem será responsável pelo pagamento da apólice. “Na prática, é mais comum que o locatário arque com o custo do seguro para proteger o conteúdo interno da residência, enquanto o proprietário tem interesse maior na proteção da estrutura física do imóvel”, diz Anne.

Segundo a especialista, em caso de sinistro, a indenização depende de quem contratou a apólice, quem consta como segurado e quais coberturas foram contratadas. “Quando o seguro cobre a estrutura do imóvel, a indenização normalmente é destinada ao proprietário. Já os bens internos, como móveis e eletrodomésticos, costumam ser indenizados ao morador ou locatário”, explica a advogada.

O que um seguro residencial cobre?

Um seguro residencial básico deve cobrir, ao menos, danos causados por incêndio, queda de raio (dentro do terreno) e explosão de qualquer natureza. Roubo, vendavais ou danos elétricos são todos opcionais e dependem de coberturas adicionais que devem ser contratadas.

O mesmo vale para os serviços. Embora venham se popularizando cada vez mais, as regras não incluem que um seguro residencial deva oferecer serviços de chaveiro, encanador ou de qualquer outro tipo. Todos também devem ser contratados previamente.

Por que o seguro residencial virou produto do cotidiano

Para seguradoras e especialistas, o destaque do seguro residencial é um misto que reflete uma mudança de comportamento do consumidor, que passou a se preocupar cada vez mais com eventos extremos, e as facilidades que esse produto passou a oferecer para quem tem imóvel alugado ou adquiriu um.

Para Magda Truvilhano, vice-presidente da comissão de riscos patrimoniais massificados da FenSeg (Federação Nacional de Seguros Gerais), o aumento dos eventos extremos aproximou o consumidor dos riscos do dia a dia. “Em estados como São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul, o aumento das indenizações esteve diretamente associado a temporais, granizo e chuvas intensas. Isso faz com que as pessoas percebam de forma mais concreta os riscos aos quais suas casas e apartamentos estão expostos”, afirma.

Ela destaca que o consumidor de outras faixas de renda também passou a entender melhor o alcance do produto. “O seguro residencial deixou de ser visto como apenas um produto voltado para imóveis de alto padrão e passou a fazer parte do planejamento financeiro de mais famílias”, aponta.

Para Emerson Nagata, superintendente de negócios e soluções de danos da Brasilseg, empresa da BB Seguros, houve uma mudança clara na relação das famílias com o seguro. “Hoje existe uma percepção maior sobre os impactos financeiros que imprevistos domésticos e eventos climáticos podem causar no orçamento familiar”, afirma. Segundo ele, o produto deixou de ficar associado apenas a incêndios e roubos. “O seguro residencial passou a incorporar serviços e assistências mais conectados ao cotidiano”, diz Nagata.

Chaveiro, encanador e eletricista: os serviços que mudaram o seguro residencial

Se antes o seguro residencial era lembrado principalmente em situações graves, hoje os serviços de assistência aparecem entre os principais motivos de contratação. A lista inclui chaveiro, encanador, eletricista, desentupimento, instalação de equipamentos e conserto de eletrodomésticos.

Dados da Brasilseg mostram que quase 65% dos acionamentos do seguro residencial estão ligados justamente a imprevistos domésticos e manutenção da casa. “Isso mostra como o seguro residencial vem sendo utilizado de forma mais recorrente pelos consumidores”, afirma Nagata.

Na avaliação da FenSeg, os serviços agregados ajudaram a aumentar a percepção de utilidade do produto. “Muitas vezes o consumidor passa a usar o seguro não apenas em sinistros, mas também em situações do cotidiano”, afirma Magda Truvilhano.

Andrea Nogueira, da Mapfre, afirma que os serviços passaram a ter peso importante na decisão de contratação. “Hoje, o cliente valoriza um seguro que também ajude na rotina da casa”, afirma. Segundo ela, além dos serviços tradicionais, o mercado passou a incorporar soluções como proteção digital contra fraudes e assistência para animais de estimação.

A Caixa Residencial também vem apostando nesse movimento. Segundo o presidente da companhia, Rodrigo Valença, o guia de assistências inclui serviços emergenciais, assistência pet, adaptação para idosos e pessoas com deficiência, limpeza de placas solares e instalação de fechaduras eletrônicas. Além disso, a empresa lançou em dezembro de 2025 uma cobertura específica para danos por água, mirando o avanço dos eventos climáticos extremos.

Apenas 17% das residências têm seguro: o potencial que o setor ainda não explorou

Apesar do avanço, o setor ainda vê grande potencial de expansão no Brasil. Segundo a Mapfre, apenas cerca de 17% das residências brasileiras possuem seguro residencial atualmente. “Isso mostra o quanto ainda existe espaço para ampliar a cultura de proteção no país”, afirma Andrea Nogueira.

Dados da FenSeg também apontam avanço gradual da penetração do produto. O índice de residências seguradas passou de 13,6% para 17% em quatro anos, segundo um amplo estudo divulgado em 2021. Um novo estudo está em andamento, e a expectativa do setor é que demonstre um avanço na cobertura.

Pelos dados das seguradoras, o crescimento deve continuar, impulsionado sobretudo pela conscientização dos consumidores, expansão do crédito imobiliário, digitalização da contratação e ampliação das coberturas. Segundo Rodrigo Valença, da Caixa Residencial, só no primeiro trimestre de 2026, a empresa registrou crescimento de 5,7% em prêmios emitidos, totalizando R$ 266,3 milhões.

Como escolher um seguro residencial: o que avaliar além do preço

Especialistas alertam que o consumidor não deve avaliar apenas o preço da apólice. Segundo Magda Truvilhano, da FenSeg, é importante verificar se os valores segurados são compatíveis com o custo real de reconstrução do imóvel e reposição dos bens.

A especialista também recomenda atenção às coberturas contratadas, franquias e serviços incluídos. “Em áreas mais sujeitas a vendavais, por exemplo, é importante contratar essa cobertura. Já em imóveis com muitos equipamentos eletrônicos, a cobertura para danos elétricos merece atenção especial”, diz Magda.

A advogada Anne Caroline Wendler alerta ainda para cláusulas de exclusão que muitas vezes passam despercebidas pelos consumidores. Segundo ela, infiltrações graduais, falta de manutenção, danos elétricos sem cobertura específica e imóveis desocupados por longos períodos podem gerar negativas de indenização.

“A força maior, por si só, não afasta automaticamente a obrigação da seguradora de indenizar. O mais importante é verificar se aquele risco estava efetivamente contratado na apólice.”

Para os especialistas, a orientação de um corretor continua sendo essencial para adequar o seguro às necessidades de cada imóvel e evitar problemas futuros.

Antes de assinar: o que verificar na apólice

Antes de mais nada, os especialistas recomendam verificar se tanto a corretora quanto a seguradora possuem autorização de funcionamento pela Susep. O site para consulta é gov.br/susep.

Depois de feita essa análise, a recomendação é pesquisar e comparar os valores dos prêmios em diferentes empresas. Escolhida uma delas, é importante ler atentamente a proposta e as condições oferecidas.

Os órgãos de defesa do consumidor indicam que o conteúdo deve ser claro e de fácil entendimento. O corretor habilitado é obrigado a tirar todas as dúvidas do cliente. A assinatura só deve ser feita quando o cliente tiver a certeza do que está contratando, o que cobre e como acionar o seguro e a franquia, que é a parte do prejuízo que deve ser arcada pelo segurado quando ele aciona o seguro.

Se a empresa que oferece o seguro não cumprir com o combinado em contrato, os especialistas recomendam primeiro tentar solucionar o problema com a ouvidoria das empresas e, se não obtiver resposta, registrar uma reclamação na Susep.

Fonte: Portas