‘Percepção de risco do clima faz entender que seguro é investimento’, diz CEO da Porto Seguro

Executiva vê aumento da procura por coberturas contra alagamento e vendaval. Em eventos de maiores proporções, como as chuvas no Rio Grande do Sul, seguradora já trabalha com equipe específica para agilizar soluções

Eventos climáticos extremos — como as tragédias observadas em 2024, no Rio Grande do Sul, e no fim de fevereiro na Zona da Mata mineira — estão mudando a percepção dos consumidores sobre a importância dos seguros. Com enchentes, deslizamentos e vendavais mais frequentes, a CEO da Porto Seguro, Patricia Chacon, argumenta que coberturas antes vistas como gasto passam a ser percebidas como proteção necessária. Em 2025, a empresa registrou aumento de 25% no seguro contra vendavais e 20% no de enchentes.

Os custos, porém, ainda são entraves. A executiva equatoriana diz que a estratégia tem sido desenvolver produtos para diferentes eixos do consumo das famílias, do carro e da casa à bicicleta e ao videogame. E soluções que facilitem o acesso, o que inclui seguros sob medida ou coberturas combinadas. E também prevê cobertura específica para motoristas de aplicativos.

Única mulher a liderar um dos braços do grupo Porto, ela destaca que há baixa representatividade em postos de liderança em todas as indústrias, apesar de as mulheres estarem preparadas.

O mercado brasileiro vê seguro como proteção ou ainda vê como custo?

Estamos numa transição cada vez maior pelo que vem acontecendo em eventos climáticos como alagamentos e vendavais. A percepção de risco dos extremos do clima faz entender que o seguro é um investimento. A Porto foi pioneira em lançar cobertura para alagamento e tem sido muito vocal para que os clientes contratem. Quando acontece uma tragédia, como recentemente em Juiz de Fora, e o cliente não tem cobertura, é algo que nos incomoda muito, porque poderíamos indenizar.

Há um aumento na procura por essas coberturas?

Sim, elevamos em 20% a contratação de cobertura de alagamento e 25% a de vendaval.

Como os extremos climáticos impactam a operação?

Temos frentes de preparação para a hora que um imprevisto acontece. Começamos com operação de assistência muito robusta, com moto aquática e times de resgate. No Rio Grande do Sul, mandamos 150 socorristas. A segunda parte é a operação de sinistro. Assim que acontece um evento de maior proporção, separamos um time focado em atender a região. Não esperamos o corretor ou o cliente ligar. No Rio Grande do Sul, os carros ficaram embaixo d’água por muito tempo. No processo tradicional, teríamos que pegar o veículo, fazer a transferência com o Detran para só depois indenizar o cliente. Mas sabemos que, nessas horas, esse dinheiro pode ser usado ou para repor o carro ou para outras coisas, então fizemos operação especial. Funcionou bem.

Estamos caminhando para que determinadas regiões se tornem “inseguráveis”?

Tem oferta em todo o Brasil. Quando acontece um evento como esse, precisamos manter a aceitação, manter os clientes cotando. No RS, em meio à catástrofe, não paramos as cotações. Discutimos no setor uma cobertura de catástrofes mais robusta, que apoie essas regiões a voltarem ao seu dia a dia. Há um grupo de trabalho na Susep (Superintendência de Seguros Privados) trabalhando nessa frente, junto à CNSeg (Confederação Nacional das Seguradoras). É um passo importante.

O seguro pode ficar mais caro com os eventos climáticos?

Nossa precificação e contrato de resseguro já consideram que esses eventos podem vir a acontecer. Isso protege o balanço da seguradora para anos futuros. O que temos evoluído nos últimos anos é no uso de informações de clima para ser mais assertivos na precificação, então isso já está considerado hoje no balanço.

A Taxa Selic está em 15% ao ano. Com juros elevados por um período longo, seguradoras se beneficiam financeiramente, mas os clientes ficam mais pressionados. Como equilibrar?

O ambiente de juros altos traz retorno financeiro maior, mas a gente mantém o foco na disciplina de resultado e no lucro operacional para assegurar sustentabilidade. Ao mesmo tempo, vemos famílias e pequenas empresas mais pressionadas e buscamos oferecer produtos que caibam no bolso. Temos crescido no seguro empresarial para pequenas e médias empresas, pois hoje temos cerca de 25% de participação nesse mercado, porque muitos empresários percebem que o seguro pode ser decisivo para manter o negócio funcionando depois de um imprevisto.

A Porto Seguro encerrou 2025 com R$ 1,6 bilhão de lucro. Quais as estratégias para 2026?

Estamos crescendo de forma acelerada no seguro de vida, no empresarial e no de residência e, para esse ano, continuamos focados nessas linhas que estão estruturalmente subpenetradas no Brasil. O seguro de vida, por exemplo, menos de 20% da população tem, assim como o residencial, que é fundamental. Queremos reforçar nossa liderança no seguro automotivo. Temos como estratégia um portfólio amplo que atenda a necessidade de cada cliente, oferecendo produtos mais enxutos para quem busca um seguro que cabe no bolso, com coberturas só para roubo e furto, e linhas mais premium para quem quer uma coisa mais completa. E fazemos isso no residencial, que inclui proteções a partir de R$ 50 mensais.

Nos lançamentos mais recentes, a Porto trouxe ao mercado produtos como o Seguro Foto e Vídeo e Seguro Game. Por quê?

Estamos olhando o que as pessoas compram e consomem. Mas a inovação não está apenas no seguro em si, mas para que toda a experiência do cliente seja ágil. Hoje a contratação é super digital e, além disso, na hora do sinistro, conseguimos pagar em 48 horas, porque temos muita informação que permite que o cliente volte ao seu dia a dia. Seguros digitais, como celular, tablet e game, são linhas que vêm crescendo bastante, o que tem permitido que novas pessoas entrem no ecossistema. Anualmente, temos crescimento de 10% na base de clientes. E fazemos ofertas melhores para clientes que já fazem parte da Porto, com proteção combinada que inclui carro e casa.

Trabalhadores por aplicativo estão no radar para produtos como seguro de vida?

Hoje a gente já tem a cobertura de acidentes pessoais, que vem crescendo bastante, e temos ampliado as coberturas de responsabilidade civil para profissionais independentes, que precisam estar protegidos caso aconteça algum imprevisto no futuro. No caso dos motoristas de aplicativo, a gente deve lançar, ainda no primeiro trimestre, uma oferta melhor. É um segmento com mais de um milhão de profissionais e que ainda tem pouca oferta de produtos.

A senhora é a única mulher à frente de uma das áreas de atuação do grupo Porto e uma das poucas executivas liderando seguradoras no país. Por quê?

Quando a gente olha para CEOs em todas as indústrias, ainda existe uma baixa representatividade feminina. Há muitas mulheres preparadas e que querem ocupar posições de liderança, ao contrário do que já se disse no passado. Por isso, quando temos mais mulheres na mesa de decisão, passamos a olhar com mais incômodo quando essa presença não existe. Na Porto, colocamos uma aspiração clara de ter 50% das posições de liderança ocupadas por mulheres até 2030, o que traz mais intencionalidade para as decisões. Isso passa desde o recrutamento até avaliações e feedbacks mais claros para que as mulheres saibam o que precisam desenvolver para crescer.

Fonte: O Globo