“PIB fantasma” e seguros: a produtividade da IA diante do risco de desemprego em massa

Artigo que simulou uma crise provocada pela inteligência artificial e abalou mercados projeta salto de eficiência com compressão salarial. Como o mercado de seguros reage se a produtividade cresce enquanto a base de renda encolhe?

Não há dúvidas de que o mundo se divide entre antes e depois da inteligência artificial. Basta observar as mudanças na rotina social: o estudante que recorre a assistentes virtuais para organizar um trabalho; o consumidor que recebe recomendações personalizadas de filmes, músicas e produtos; o motorista que escolhe o trajeto com base em previsões automáticas de tráfego; o atendimento bancário resolvido por chat em segundos; a triagem médica inicial feita por sistemas que analisam sintomas. A tecnologia já é parte intrínseca das decisões cotidianas, muitas vezes de forma imperceptível, mas é. Esse mesmo padrão atravessa também empresas e setores cuja matéria-prima sempre foi o cálculo de probabilidades. E, é claro, o seguro é um deles.

Produtividade acelerada e reação imediata dos mercados

A questão é que, apesar de tantos benefícios associados à IA, a circulação do artigo “A crise global de inteligência de 2028”, publicado pela Citrini Research como um exercício hipotético ambientado em 2028, foi suficiente para derrubar ações de empresas de tecnologia e instituições financeiras. O texto projeta um “PIB fantasma” e desemprego em massa, e descreve um salto de produtividade impulsionado por agentes de inteligência artificial ao lado de uma contração profunda do mercado de trabalho, especialmente entre profissionais de escritório. O mercado reagiu antes mesmo de o futuro chegar.

A hipótese é de que a IA amplia a capacidade produtiva das empresas, reduz a necessidade de mão de obra e comprime salários.

O resultado seria uma economia que cresce nas estatísticas, mas perde tração no consumo. A produção aparece nas contas nacionais; a renda disponível encolhe. O efeito dominó atinge crédito, mercado imobiliário, serviços e cadeias inteiras dependentes da circulação de renda.

A automação como infraestrutura do seguro

No mercado de seguros, o cenário descrito encontra paralelos possíveis. Grande parte das atividades de uma seguradora está concentrada justamente em tarefas administrativas, analíticas e de processamento (subscrição, precificação, regulação de sinistros, atendimento, backoffice, conformidade, análise atuarial). São funções estruturadas, baseadas em dados e decisões padronizáveis, ou seja: um terreno fértil para automação avançada. Hoje, modelos preditivos já apoiam a aceitação de riscos; sistemas automatizados analisam imagens de veículos avariados; assistentes virtuais conduzem etapas do atendimento; ferramentas de detecção identificam indícios de fraude em segundos. Se agentes autônomos evoluírem a ponto de executar fluxos completos sem ou com pouca supervisão humana, o impacto na estrutura de pessoal tende a ser concreto.

É possível imaginar uma rotina de subscrição em que um único analista supervisione dezenas de decisões tomadas por sistemas treinados com históricos massivos de dados. Ou uma área de sinistros em que o contato humano seja acionado apenas em exceções complexas. Nesse caso, a produtividade sobe e a folha de pagamento encolhe.

Renda menor e base segurável comprimida

Uma das perguntas que permeiam o artigo da Citrini Research é: o que acontece quando esse ganho de eficiência se generaliza? O seguro depende de prêmios pagos por indivíduos e empresas. Se parte relevante da força de trabalho perde renda ou migra para ocupações de menor remuneração, a base segurável muda. Produtos facultativos como residencial, vida individual ou coberturas adicionais no auto podem enfrentar retração. Assim, a inadimplência cresce e a pressão sobre os preços aumenta.

Confiança e valor do seguro em ambiente de instabilidade

Há também uma dimensão reputacional. Se a promessa do seguro é oferecer estabilidade diante da incerteza, a substituição acelerada de pessoas por sistemas pode tensionar essa narrativa. É preciso levar em conta que clientes que enfrentam desemprego ou redução de renda tendem a revisar despesas e explicar o valor da proteção em um ambiente de instabilidade social exige linguagem e produtos ajustados à nova realidade.

A provocação do “PIB fantasma” e os pontos cegos do debate tecnológico

O artigo do “PIB fantasma” não descreve um destino inevitável e, como observou a InfoMoney em uma matéria sobre o assunto, talvez não precise ser tão levado a sério. Ainda assim, sua força está na organização de hipóteses que ajudam a testar limites. A projeção que o texto fez sobre um salto de produtividade acompanhado de compressão salarial e retração do consumo coloca empresas e investidores diante de premissas que costumam passar sem questionamento, qual seja a de que toda inovação tecnológica gera, em algum momento, compensações automáticas no emprego e na renda. Ao sacudir essa crença, ampliou o campo de observação sobre riscos sistêmicos. Para o mercado de seguros, essa reflexão tem muita utilidade. A atividade depende de renda circulando, crédito ativo, contratos em vigor e confiança no futuro. Se a inteligência artificial alterar a estrutura ocupacional, a dinâmica do consumo e o perfil das empresas, os impactos podem alcançar a própria base que sustenta a demanda por proteção.

Assim, tratar o texto como hipótese permite afastar o alarmismo e, ao mesmo tempo, evitar complacência. Ele funciona como um teste de estresse conceitual que permite se perguntar questões como: o que acontece com prêmios, sinistralidade, crédito e responsabilidade civil se a automação avançar mais rápido do que a capacidade de absorção do mercado de trabalho? Como ficam os modelos de negócio quando a eficiência cresce, mas a renda disponível encolhe?

Para obter respostas sobre qualquer coisa, é preciso sempre fazer perguntas. Por isso, o valor do debate está em usar a provocação de antecipar 2028 para mapear tendências, identificar fragilidades e planejar transições. Em vez de um roteiro fechado sobre o futuro, o “PIB fantasma” oferece um espelho para avaliar escolhas presentes antes que elas produzam efeitos difíceis de administrar.

Fonte: Insurtalks