Allianz Trade aponta US$ 1,1 trilhão em créditos expostos a alto risco

Índice mostra que quase metade das contas a receber do comércio internacional está concentrada em países com risco muito alto ou grave de cobrança

Em um cenário de fragmentação econômica, tensões geopolíticas e mudanças nos fluxos comerciais, a recuperação de créditos no comércio internacional segue como um dos principais desafios para as empresas. De acordo com a 4ª edição do Índice de Complexidade de Cobrança da Allianz Trade, quase metade das contas a receber do comércio global está exposta a riscos classificados como muito altos ou graves, somando cerca de US$ 1,1 trilhão.

O levantamento avalia a facilidade ou dificuldade de recuperar faturas não pagas em 52 economias que representam aproximadamente 90% do Produto Interno Bruto (PIB) e do comércio global. Para 2026, a complexidade média global de cobrança foi classificada como alta, com pontuação de 47,2 em uma escala de 0 a 100.

A América Latina aparece entre as regiões com maior exposição à complexidade da cobrança internacional, e o Brasil se destaca negativamente nesse contexto. Considerando a média dos seus destinos de exportação, o país alcançou pontuação de 54, sendo classificado no nível muito alto de complexidade. Na região, o Peru lidera o ranking, com 55 pontos, enquanto Brasil, Colômbia e México dividem a segunda posição.

Segundo a análise da Allianz Trade, fatores como o custo elevado e a longa duração dos processos judiciais reduzem significativamente as chances de obtenção de sentenças executórias em tempo hábil no Brasil. Por esse motivo, acordos amigáveis e o uso de métodos especializados de cobrança são apontados como alternativas mais eficientes à via judicial. Embora mecanismos de recuperação de empresas estejam sendo utilizados com maior frequência em casos de insolvência, as chances práticas de recuperação de créditos seguem limitadas.

O estudo também mostra que os exportadores brasileiros enfrentam riscos elevados de cobrança em praticamente todos os mercados com os quais mantêm relações comerciais. Entre os 20 principais destinos das exportações do país, Arábia Saudita, México e China aparecem como os países mais complexos para a recuperação de dívidas comerciais.

Apesar de uma leve melhora na média global em relação à edição anterior do índice, divulgada em 2022, a cobrança de dívidas continua sendo um desafio estrutural. A proporção de países classificados nas categorias grave e muito alta apresentou pequena redução, enquanto aumentou o número de economias enquadradas nos níveis alto e notável. Ainda assim, o crescimento do comércio internacional elevou o valor absoluto das contas a receber expostas a riscos elevados.

 

De acordo com a Allianz Trade, cerca de 48% das contas a receber do comércio internacional estão localizadas em países com complexidade de cobrança muito alta ou grave. Esse percentual representa um aumento marginal em relação a 2022, mas um avanço expressivo em termos financeiros, impulsionado pela expansão do comércio global.

Os processos de insolvência continuam sendo o principal fator de complexidade em todas as regiões analisadas. As práticas locais de pagamento se destacam como o maior desafio no Oriente Médio, enquanto questões relacionadas ao funcionamento dos tribunais têm maior peso na África, na América Latina e em parte da Ásia. Na Europa Ocidental, esses entraves aparecem de forma menos intensa.

Na comparação entre países, a Allianz Trade aponta Alemanha, Países Baixos e Portugal como os mercados onde é mais fácil recuperar créditos internacionais. No extremo oposto, Arábia Saudita, México e Emirados Árabes Unidos seguem como os ambientes mais complexos para a cobrança de dívidas comerciais.

O relatório também chama atenção para os chamados centros comerciais da próxima geração, que vêm ganhando relevância nas novas rotas do comércio global. Mercados como Emirados Árabes Unidos, Vietnã e Malásia apresentam alto potencial econômico, mas combinam esse crescimento com níveis graves de complexidade de cobrança, exigindo maior seletividade e rigor na gestão de crédito por parte dos exportadores.

Em um ambiente marcado por protecionismo, riscos climáticos, digitalização acelerada e reconfiguração das cadeias globais, a Allianz Trade avalia que a cobrança internacional de dívidas tende a se tornar ainda mais complexa nos próximos anos, reforçando a importância de estratégias robustas de análise de risco e proteção de crédito no comércio exterior.

Fonte: CQCS