Fraudes virtuais atravessam perfis, idades e hábitos digitais e colocam em pauta a evolução do seguro cibernético além do ambiente corporativo.
As fraudes digitais em redes sociais são um problema que atinge usuários de todos os perfis, explora brechas técnicas e comportamentais e permanece difícil de conter mesmo com a evolução das ferramentas de segurança. No mercado de seguros, esse tipo de prática se traduz em tentativas recorrentes de fraude, uso indevido de dados e pressão constante sobre os mecanismos de controle e confiança. A vulnerabilidade dos consumidores diante desses golpes reforça a necessidade do setor de seguros aprimorar suas estratégias de prevenção, sobretudo em um ambiente no qual a interação comercial migrou de forma intensa para as plataformas digitais. Essa situação faz refletir sobre como (e se) o seguro cibernético está atuando para minimizar os riscos e/ou prejuízos dos consumidores.
Quando o medo de golpes interfere na decisão de consumo
Um estudo divulgado pela Forbes, indica que 7 em cada dez brasileiros já deixaram de concluir uma compra online por medo de golpes, e 82% afirmam ter sido expostos a tentativas de fraude, em grande parte associadas a anúncios e perfis falsos nas redes sociais. Isso ocorre no mesmo espaço onde marcas, corretores e seguradoras buscam proximidade e credibilidade junto ao público.
Estudo mostra que os golpes virtuais não escolhem idade, mas seguem padrões de uso
Uma matéria publicada pela Agência Senado, com base em estudo da DataSenado, reforça a dimensão estrutural do problema ao apontar que os golpes virtuais seguem em alta no país. A pesquisa, que ouviu quase 22 mil pessoas, aponta que os jovens entre 16 e 29 anos respondem pela maior parcela das vítimas, com 27% dos casos, enquanto pessoas com mais de 60 anos representam 16%. O levantamento ajuda a desmontar a percepção de que os golpes virtuais se concentram majoritariamente entre idosos e mostra que a exposição ao risco está mais relacionada à forma e à intensidade de uso das plataformas digitais, além do tipo de interação estabelecida nelas. Isto é: a própria arquitetura das redes sociais e dos meios digitais favorece abordagens persuasivas que atravessam gerações e níveis distintos de experiência.
Exposição transversal amplia o papel do mercado segurador
Esse recorte amplia o campo de atuação das seguradoras. Ao indicar que a exposição ao risco é transversal, o estudo oferece subsídios para o desenho de produtos que considerem diferentes perfis de uso, graus de vulnerabilidade e tipos de dano. Essas informações abrem espaço para soluções que incorporem orientação preventiva, resposta rápida a incidentes e apoio ao segurado após o golpe, integrando a proteção contra fraudes digitais ao cotidiano de quem usa redes sociais como ambiente de consumo, comunicação e trabalho.
Seguro cibernético tem assimetria entre pessoa jurídica e física
Apesar de já existir essa evolução no diagnóstico do risco, o seguro cibernético ainda apresenta uma assimetria entre o atendimento às empresas e à pessoa física no Brasil. No ambiente corporativo, as coberturas já contemplam perdas financeiras, paralisações operacionais, vazamento de dados e responsabilidades legais, com produtos relativamente consolidados e linguagem técnica amadurecida. Para o indivíduo, porém, o tema permanece em fase de construção porque os prejuízos são mais difusos, já que as fronteiras entre dano material, emocional e reputacional nem sempre são objetivas e a mensuração do risco exige novos parâmetros. Esse descompasso coloca para os seguros o desafio de transformar um problema cotidiano e amplamente distribuído em modelos de proteção compreensíveis, economicamente viáveis e alinhados às formas reais de uso das plataformas digitais.
Caminhos graduais diante de um risco difuso
Diante desse descompasso entre a maturidade das coberturas corporativas e a fragilidade da proteção voltada ao indivíduo, a ampliação do leque do seguro cibernético tende a ocorrer por aproximações sucessivas, sem mudanças estruturais bruscas. Um caminho possível precisa passar por movimentos graduais. A incorporação de coberturas modulares, ajustadas a situações recorrentes como fraude financeira, uso indevido de dados pessoais e apoio jurídico em casos de golpe, pode funcionar como ponto de partida para ampliar a proteção ao indivíduo sem exigir, de imediato, estruturas complexas de precificação. Ao mesmo tempo, a articulação entre seguro, educação digital e serviços de monitoramento pode ser interessante porque tira o foco exclusivo da indenização para a mitigação do dano, exclusivamente. Nesse processo, o papel das seguradoras pode ser o de organizar respostas possíveis diante de um risco difuso, mutável e profundamente conectado à forma como as pessoas se relacionam com o ambiente digital.
Não são para cobrir os riscos mensuráveis que as seguradoras existem?
Para o mercado de seguros, o crescimento das fraudes digitais em redes sociais reforça a necessidade de acompanhar a transformação dos hábitos de consumo e interação dos brasileiros. A proteção contra riscos cibernéticos, especialmente para pessoas físicas, exige uma leitura mais atenta das vulnerabilidades reais e do modo como os golpes se disseminam nas plataformas digitais. Afinal, não são para cobrir os riscos mensuráveis que as seguradoras existem? Então, há riscos e há possibilidades (não fáceis, não desenhadas) de mensurá-los. Para isso, é preciso pensar em refinar a adequação do seguro cibernético às pessoas físicas, às formas digitais de viver (e consumir) em sociedade e aos riscos decorrentes de tudo isso. Não há solução mágica nem caminhos imediatos, mas há possibilidades e são elas que o setor precisa explorar.
Fonte: Insurtalks








