2026 testa a sobrevivência econômica do produtor rural, alerta Roberto Rodrigues

O agronegócio brasileiro entra em 2026 sob um paradoxo incômodo. A produção segue robusta, com capacidade de garantir abastecimento interno e sustentar exportações, mas a renda do produtor rural se estreita a um ponto que ameaça a própria continuidade do ciclo produtivo.

 

A leitura é de Roberto Rodrigues, professor emérito da Fundação Getúlio Vargas e Embaixador Especial da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês) para o Cooperativismo.

 

Segundo Rodrigues, que aos 83 anos continua sendo uma das mentes mais influentes do agro brasileiro, o ano se estrutura sobre uma combinação adversa rara. Os custos de produção avançaram, os preços internacionais recuaram em dólar e o custo financeiro atingiu patamares incompatíveis com a lógica da atividade agrícola.

 

“Com juros ao redor de 20% ao ano, a matemática não fecha. Mesmo quem alcança algo próximo de 15% de lucro operacional termina o ciclo no prejuízo”, afirma.

 

Do ponto de vista macroeconômico, a fotografia é favorável. A safra volumosa ajuda a conter a inflação, garante oferta de alimentos e contribui para o desempenho externo do país.

 

Segundo dados mais recentes da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), de dezembro, a safra 2025/2026 está prevista em 354,4 milhões de toneladas de grãos, cereais e fibras naturais, o que representa um leve acréscimo de 0,6% ante a colheita anterior, estimada em 352,2 milhões de toneladas.

 

No nível do produtor, porém, o efeito é inverso. Produzir mais sem gerar renda, observa Rodrigues, corrói a base do sistema. Se esse quadro persistir, a reação tende a aparecer em dois ou três anos, com redução de tecnologia, corte de investimentos e retração de área plantada. Produtividade vira linha divisória entre lucro e prejuízo

 

Em um ambiente de margens comprimidas, a produtividade se transforma no divisor de águas entre permanecer no azul ou operar no vermelho. O problema é que esse fator depende de variáveis que fogem ao controle do produtor, como clima, acesso a crédito e qualidade dos insumos.

 

“Se a produtividade ficar abaixo da média nacional, o resultado financeiro é negativo. Para grãos, 2026 é particularmente duro”, diz.

 

Alguns segmentos escapam parcialmente da pressão. O café atravessa um período de recomposição após anos de seca e geadas, ainda com preços acima da média histórica. Já a pecuária, que vinha se beneficiando do custo menor dos grãos, enfrenta um choque externo relevante.

 

A decisão da China de aplicar tarifa de 55% sobre volumes de carne bovina acima da cota de 1,7 milhão de toneladas altera a equação de um mercado no qual cerca de 70% da carne brasileira entrava com tarifas reduzidas. O impacto tende a ser direto sobre preços e margens. Tecnologia perde eficiência como amortecedor do ciclo

 

Mesmo a tecnologia, tradicional amortecedor dos ciclos negativos do agro, apresenta fissuras. Rodrigues chama atenção para ajustes feitos pela indústria de fertilizantes, que reduziram a solubilidade de alguns produtos para baratear preços. A economia aparente, ressalta, cobra seu custo adiante.

 

“O insumo fica mais barato, mas entrega menos à planta. Isso aparece na produtividade”, afirma.

 

O cenário doméstico adiciona outro elemento de pressão. Em ano eleitoral, a tendência histórica é de políticas mais sensíveis ao consumidor urbano do que ao produtor rural. Com o custo financeiro elevado, o campo fica mais exposto justamente quando a necessidade de previsibilidade é maior. Acordo com a Europa perde peso estratégico

 

No front externo, a frustração se concentra no acordo Mercosul-União Europeia. Rodrigues, que acompanhou o tema por mais de duas décadas, avalia que as salvaguardas impostas por países como França e Itália esvaziaram o interesse estratégico do agronegócio brasileiro.

 

“Fui um defensor do acordo, mas, do jeito que ficou, ele perdeu relevância prática. As barreiras anulam qualquer ganho real”, diz.

 

A preocupação maior, contudo, vai além da Europa. Crescer produção sem ampliar mercados é, na visão de Rodrigues, um erro clássico.

 

Ele recorre ao exemplo do café nas décadas de 1950 e 1960, quando a superoferta derrubou preços abaixo do custo. Hoje, com cerca de 47 milhões de hectares de soja, a dependência de poucos compradores amplia o risco. Se a China avançar com produção em larga escala em outras regiões, como a África, o excedente brasileiro pode pressionar preços de forma estrutural. O tripé que levou o Brasil ao topo começa a se desgastar

 

O caminho que levou o Brasil à condição de potência agrícola, relembra Rodrigues, apoiou-se em três pilares internos (a tecnologia, o empreendedorismo e as políticas públicas) e em um fator externo decisivo: a expansão da demanda asiática.

 

A tropicalização da agricultura, liderada pela Embrapa, mudou a base produtiva do país. Desde 1990, a área plantada com grãos mais que dobrou, enquanto a produção avançou mais de cinco vezes.

 

Para sustentar o próximo ciclo, os gargalos são claros. A pesquisa científica enfrenta restrições orçamentárias, a logística segue deficiente, sobretudo em armazenagem e acesso a portos, e o seguro rural cobre menos de 10% da área plantada. Segundo a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) o porcentual não deve ter passado de 2,3% da área plantada no País.

 

“Sem seguro não há estabilidade. Sem estabilidade não há crédito. E sem crédito não há tecnologia”, resume. Cooperativismo surge como eixo de inclusão e crédito

 

A organização produtiva aparece como peça central dessa equação. Dos cerca de 5 milhões de estabelecimentos rurais no país, apenas 1 milhão opera plenamente integrado ao mercado tecnológico. Para Rodrigues, o cooperativismo é a ponte mais eficiente para incluir os demais, reduzir custos financeiros e diluir riscos.

 

Hoje, as cooperativas respondem por mais da metade da produção agropecuária nacional, com predominância de pequenos produtores.

 

“Em países como Holanda e França, o crédito cooperativo domina o sistema. No Brasil, ainda é recente, mas é a alternativa mais saudável diante dos juros elevados dos bancos tradicionais”, afirma. Sustentabilidade vira disputa comercial no tabuleiro global

 

Na agenda ambiental, o ex-ministro rejeita a associação automática entre produção agropecuária e desmatamento. Para ele, o problema central é a ilegalidade.

 

“Mais de 90% do desmatamento é ilegal. Quem faz isso é criminoso. O erro é permitir que isso seja usado para atacar todo o setor”, diz.

 

A disputa ambiental, avalia, seguirá sendo instrumento comercial, e o desafio do Brasil é combater o crime com rigor e comunicar de forma clara que o produtor que cumpre a lei faz parte da solução.

 

Ao olhar o tabuleiro global, Rodrigues avalia que o Brasil ainda não assumiu plenamente o protagonismo político compatível com sua relevância agrícola.

 

Em um mundo pressionado por insegurança alimentar, transição energética, desigualdade social e mudanças climáticas, a agricultura tropical ocupa posição estratégica.

 

“O mundo precisa de comida. E comida é paz. Sem alimento, não há democracia”, afirma. Para ele, a missão brasileira transcende o campo. “Agricultura é vida. Falta ao país compreender que essa é uma missão estratégica.”

 

Fonte: MSN Notícias